Mariana,
não quero toda hora ficar me repetindo, e me lamentando e dizendo que não tenho tempo. Mas ultimamente tem sido difícil achar minutos que sejam para atualizar esse seu diário virtual. Então, apenas para não ficar sem registro, corro para te contar que você melhorou muito da sua dor de garganta. Tomou antibiótico pela primeira vez na vida. Chorou no primeiro dia, tomou sorrindo nos outros dois. A febre logo baixou e você voltou a ser a menina sorridente de todos os dias. Logo também voltou o apetite que tinha ido embora com a doencinha. E junto te levou meio quilo. Mas que logo voltará, filha. E as noites também passaram a ficar mais calmas. Você dormindo de novo como um anjinho. Não tem alegria maior do que ver um filho se recuperar filha, voltar a ver você ficar corada e se interessar pela comida que está no prato.
E no fim de semana você me chamou de mãezinha pela primeira vez. Me abraçava e dizia "mãezinha da nenê". Chorei, filha. Já te disse, sou afeita às sentimentalidades e o choro chega fácil quando o assunto é você. Também chamou seu pai de papaizinho, que sorriu e chorou e se sentiu grande como nunca pensou ser. Seu pai te olha e não se cansa de repetir que nunca imaginou na vida receber um presente do tamanho do que recebemos.
E registro também o final de semana. Seus dinhos vieram almoçar em casa, com suas primas Vic e Bruna. Em segundos a casa estava virada, brinquedos para todo o lado, crianças correndo, brincando, brigando e chorando. Uma casa com crianças é uma casa com vida. Foi um sábado delicioso. Seus avós Marisa e Roberto também vieram, todo mundo junto, curtindo vocês três, meninas lindas, lindas, lindas, nossas alegrias na vida.
E fechando o final de semana fomos ao aniversário da Olivia, filha da minha amiga Alê. De novo uma delícia te ver brincando, pulando no pula-pula, girando no carrossel, como é maravilhoso te ver crescendo filha. E lá estavam todas as minhas amigas, muitas delas eu não via há muitos anos, gente querida que a vida corrida insiste em separar. Todo mundo lá, com filho, com sorriso no rosto, festejando muito esse dia feliz.
Por fim te conto que voltei definitivamente a dançar. E sou muito feliz nessa hora e meia em que faço algo somente por prazer. Danço por dançar. E isso é maravilhoso.
Em resumo, filha, tudo tranquilo conosco, você está crescendo, falando cada dia frases mais inacreditáveis, e te prometo um post só com esse assunto.
É isso aí. Registros feitos, e torcendo para sobrar mais tempo para retomar a atividade normal.
Te amo filha querida.
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terça-feira, 30 de março de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
A volta do arado (Rubem Alves).
Segundo os poemas sagrados que contam das nossas origens, eu fui feito de coisas bem deste mundo: a terra, a água, o vento. E acredito que sim, pois eu amo essas coisas. Amo a terra, amo o vento, amo a água, e me sinto feliz no meio delas, minhas irmãs, continuação do meu corpo. Não sinto nostalgia dos céus. Assustam-me as sobrehumanas companhias. Quero o barco, a gaivota, o mar, as árvores, o vazio onde navegam as nuvens, planam as aves, flutuam as pipas, e os seus cheiros, cores, barulhos, gostos, memórias...
Amo também as coisas urbanas. A praça com os namorados, velhinhos e crianças, O coreto vazio, cheio de saudades, onde se ouvia a banda tocar. A mesa do bar, sorvete e refresco, conversas sem fim, as falas de amor. O concerto, o teatro, o cemitério. Já notaram como os cemitérios são tranqüilos? Os relógios param, respira-se um ar de muitos anos atrás. E as feiras e mercados, derramados de frutas e verduras – que continuam a ter as mesmas cores e cheiros, a despeito da inflação. Todas essas coisas moram dentro de mim. Acho, inclusive, que nós somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno. Há a estória da linda princezinha que foi enfeitiçada e, sempre que abria a boca, dela só saíam cobras, sapos e lagartos. Outras, quando falam, delas sai um arco-íris.
Fico triste pensando que, morrendo, não estarei mais aqui para cuidar dessas coisas e para dizer a elas que elas são belas. Gostaria que alguém houvesse que delas cuidasse. Dizem que isso é bobagem. Morreu, acabou. Mas, por enquanto estou vivo, e não posso deixar de pensar naqueles que tomarão o meu lugar. Desejo que as coisas que eu amo continuem a ser amadas e cuidadas, mesmo depois da minha partida. Sei que retomarei ao mundo vegetal- mineral de onde saí. Mas acontece que em mim vivem coisas que esse mundo mineral-vegetal não entende, pois ele mora no esquecimento. Estórias, poemas, canções, sonhos, rostos. Essas coisas são a alma do meu mundo e só sobreviverão se houver alguém que as ame como eu as amo. E é isso que as gerações mais velhas esperam dos jovens: uma cumplicidade nos objetos de amor. E é por isso que geramos filhos – não por acidente biológico –, mas porque em nós existe o desejo de alguém a quem possamos entregar o mundo que amamos, como herança. Eles cuidarão dele depois da nossa partida. Mas parece que as coisas não acontecem assim. E se a psicanálise elegeu o mito de Édipo como protótipo das relações entre filhos e pais, foi porque ela descobriu ódio e inveja, vingança e morte a separar as gerações. E até as estórias infantis dizem a mesma coisa: a madrasta envia a Branca de Neve para a floresta para ser morta pelo caçador. E assim as gerações se sucedem, sob a maldição da inimizade. Mas há um outro mito. Quando a Grécia se preparava para a Guerra de Tróia, mandou convocar seus heróis para as batalhas. Agamenon, Palâmades e Menelau foram encarregados de trazer Ulisses. Mas ele havia se casado, fazia pouco, e se deleitava com o filhinho recém-nascido. Nada lhe parecia mais terrível que uma guerra que o separasse da esposa e do menino. Resolveu passar- se por louco. Pôs um chapéu cônico na cabeça, atrelou um boi e um burro a um arado e pôs-se a arar a areia, onde semeava sal.
Palâmades desconfiou. E tratou de desfazer o embuste. Agarrou a criancinha e a colocou na direção da lâmina do arado que se aproximava. Ulisses fez o arado desviar-se em semicírculo, em torno da criança. E com isso se revelou. Teve de ir para a guerra...
Estória de ternura: um pai se trai para salvar o filho.
Sempre que se anuncia a geração de uma criança, anuncia-se também a repetição dessa estória imemorial. Muitos arados serão desviados... E com isso se anuncia a coisa mais bela que pode existir: os laços de amor que ligam as gerações que vão passando. E ficamos sabendo que haverá alguém para cuidar das coisas belas que amamos...
É POR ISSO QUE GERAMOS FILHOS – NÃO POR ACIDENTE BIOLÓGICO -–, MAS PORQUE EM NÓS EXISTE O DESEJO DE ALGUÉM A QUEM POSSAMOS ENTREGAR O MUNDO QUE AMAMOS, COMO HERANÇA.
**************
Mariana,
Foi lendo esse texto, em agosto de 2006, na revista Bons Fluidos, que pensei pela primeira vez que gostaria de ter um filho. Naquele tempo acreditei que poderia dar o mundo de presente a alguém. Mas hoje sei que quem ganhou o maior presente do mundo fui eu mesma.
Obrigada, minha filha.
**************************
Um grande beijo para outra Mariana, a Paduan, que ontem foi presenteada com a chegada da pequena Catarina.
Para a nova mãe, para a nova filha e para a nova família, meus desejos de muita alegria, muito amor e muita paz!
Amo também as coisas urbanas. A praça com os namorados, velhinhos e crianças, O coreto vazio, cheio de saudades, onde se ouvia a banda tocar. A mesa do bar, sorvete e refresco, conversas sem fim, as falas de amor. O concerto, o teatro, o cemitério. Já notaram como os cemitérios são tranqüilos? Os relógios param, respira-se um ar de muitos anos atrás. E as feiras e mercados, derramados de frutas e verduras – que continuam a ter as mesmas cores e cheiros, a despeito da inflação. Todas essas coisas moram dentro de mim. Acho, inclusive, que nós somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno. Há a estória da linda princezinha que foi enfeitiçada e, sempre que abria a boca, dela só saíam cobras, sapos e lagartos. Outras, quando falam, delas sai um arco-íris.
Fico triste pensando que, morrendo, não estarei mais aqui para cuidar dessas coisas e para dizer a elas que elas são belas. Gostaria que alguém houvesse que delas cuidasse. Dizem que isso é bobagem. Morreu, acabou. Mas, por enquanto estou vivo, e não posso deixar de pensar naqueles que tomarão o meu lugar. Desejo que as coisas que eu amo continuem a ser amadas e cuidadas, mesmo depois da minha partida. Sei que retomarei ao mundo vegetal- mineral de onde saí. Mas acontece que em mim vivem coisas que esse mundo mineral-vegetal não entende, pois ele mora no esquecimento. Estórias, poemas, canções, sonhos, rostos. Essas coisas são a alma do meu mundo e só sobreviverão se houver alguém que as ame como eu as amo. E é isso que as gerações mais velhas esperam dos jovens: uma cumplicidade nos objetos de amor. E é por isso que geramos filhos – não por acidente biológico –, mas porque em nós existe o desejo de alguém a quem possamos entregar o mundo que amamos, como herança. Eles cuidarão dele depois da nossa partida. Mas parece que as coisas não acontecem assim. E se a psicanálise elegeu o mito de Édipo como protótipo das relações entre filhos e pais, foi porque ela descobriu ódio e inveja, vingança e morte a separar as gerações. E até as estórias infantis dizem a mesma coisa: a madrasta envia a Branca de Neve para a floresta para ser morta pelo caçador. E assim as gerações se sucedem, sob a maldição da inimizade. Mas há um outro mito. Quando a Grécia se preparava para a Guerra de Tróia, mandou convocar seus heróis para as batalhas. Agamenon, Palâmades e Menelau foram encarregados de trazer Ulisses. Mas ele havia se casado, fazia pouco, e se deleitava com o filhinho recém-nascido. Nada lhe parecia mais terrível que uma guerra que o separasse da esposa e do menino. Resolveu passar- se por louco. Pôs um chapéu cônico na cabeça, atrelou um boi e um burro a um arado e pôs-se a arar a areia, onde semeava sal.
Palâmades desconfiou. E tratou de desfazer o embuste. Agarrou a criancinha e a colocou na direção da lâmina do arado que se aproximava. Ulisses fez o arado desviar-se em semicírculo, em torno da criança. E com isso se revelou. Teve de ir para a guerra...
Estória de ternura: um pai se trai para salvar o filho.
Sempre que se anuncia a geração de uma criança, anuncia-se também a repetição dessa estória imemorial. Muitos arados serão desviados... E com isso se anuncia a coisa mais bela que pode existir: os laços de amor que ligam as gerações que vão passando. E ficamos sabendo que haverá alguém para cuidar das coisas belas que amamos...
É POR ISSO QUE GERAMOS FILHOS – NÃO POR ACIDENTE BIOLÓGICO -–, MAS PORQUE EM NÓS EXISTE O DESEJO DE ALGUÉM A QUEM POSSAMOS ENTREGAR O MUNDO QUE AMAMOS, COMO HERANÇA.
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Mariana,
Foi lendo esse texto, em agosto de 2006, na revista Bons Fluidos, que pensei pela primeira vez que gostaria de ter um filho. Naquele tempo acreditei que poderia dar o mundo de presente a alguém. Mas hoje sei que quem ganhou o maior presente do mundo fui eu mesma.
Obrigada, minha filha.
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Um grande beijo para outra Mariana, a Paduan, que ontem foi presenteada com a chegada da pequena Catarina.
Para a nova mãe, para a nova filha e para a nova família, meus desejos de muita alegria, muito amor e muita paz!
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